Um ano depois de assumir o comando da Novo Nordisk, Mike Doustdar aposta nas vendas “fenomenais” de seu comprimido para perda de peso, em novos medicamentos e em aquisições para recolocar a farmacêutica na rota do crescimento.
Doustdar, o primeiro estrangeiro a liderar a farmacêutica dinamarquesa, quer que a fabricante do Ozempic assuma riscos enquanto tenta recuperar seu desempenho em meio à forte concorrência e a resultados decepcionantes em testes clínicos.
“Se você não lida bem com o fracasso, não deveria entrar no setor farmacêutico”, disse ele ao FT na sede da Novo, nos arredores de Copenhague.
“Na verdade, acho que, para nós, o sucesso será ter mais chances de marcar, porque lidamos com ciência e pesquisa, áreas às quais o fracasso está inevitavelmente associado.”
O executivo de 55 anos não se esquivou de decisões difíceis desde que assumiu o cargo de diretor-presidente, em agosto de 2025. Ele anunciou o corte de 9.000 postos de trabalho —o maior da história empresarial da Dinamarca— e reduziu drasticamente as projeções de lucro e receita devido à perda de participação de mercado e à pressão sobre os preços de seu medicamento injetável para perda de peso.
Embora reconheça o cenário desafiador —a empresa prevê que as vendas e o lucro operacional possam cair até 12% neste ano—, Doustdar afirmou que a Novo pode voltar a crescer sob sua liderança.
“Estou muito confiante na capacidade da Novo Nordisk de retomar, ao longo do tempo, o crescimento sustentável das vendas e dos lucros”, disse. “Essa confiança não se baseia na expectativa de que o mercado se tornará mais fácil. Ela se baseia na dimensão das necessidades ainda não atendidas dos pacientes, na força de nossa ciência e de nosso portfólio e nas mudanças que estamos fazendo para nos tornarmos mais focados, ágeis e competitivos.”
Para atingir esse objetivo, afirmou, a Novo precisa assumir riscos e aceitar que alguns deles não darão resultado.
A necessidade de lidar com adversidades ficou evidente durante a entrevista de Doustdar ao FT, na sexta-feira (31), quando sua equipe interrompeu a conversa para anunciar que um medicamento destinado a reduzir o risco de ataques cardíacos havia fracassado em um estudo clínico de fase avançada, levando as ações da Novo a cair 10%. Os resultados representaram um revés para os esforços de desenvolver linhas de tratamentos para além de seus campeões de vendas voltados à perda de peso.
“Não é a primeira vez, nem será a última, que fracassamos, e isso não nos desvia de nossa estratégia”, disse Doustdar, reiterando o compromisso da empresa com o desenvolvimento de tratamentos para problemas cardiovasculares e com a continuidade de outros dois estudos relacionados.
A Novo foi pioneira nos modernos medicamentos para perda de peso e se tornou, em 2023, a empresa de capital aberto mais valiosa da Europa, antes de suas ações e vendas despencarem à medida que a rival americana Eli Lilly e concorrentes de medicamentos genéricos conquistavam participação de mercado.
A escolha de Doustdar refletiu a disposição do conselho para promover uma reviravolta, alçando ao comando o austríaco nascido no Irã e criado nos Estados Unidos, que havia ascendido discretamente de auxiliar de escritório a chefe das operações internacionais da Novo ao longo de três décadas.
Em sua entrevista final para o cargo, munido de uma apresentação de 106 páginas, ele se lembra de ter dito ao conselho que não deveria contratá-lo se não estivesse disposto a apoiar decisões difíceis e impopulares, entre elas possíveis cortes de pessoal.
Depois de reduzir o quadro de funcionários e conduzir uma reformulação do conselho, Doustdar recebeu um impulso em junho, quando as prescrições do comprimido Wegovy, da Novo, superaram 3 milhões menos de seis meses após sua chegada ao mercado, tornando-o um dos maiores lançamentos farmacêuticos da história dos Estados Unidos em volume.
“Os números são fenomenais”, afirmou. A Eli Lilly lançou seu próprio comprimido concorrente em abril, mas, em vez de prejudicar a demanda pelo Wegovy, Doustdar disse que as vendas do tratamento oral da Novo “aceleraram” desde então.
O comprimido Wegovy, versão oral de seu campeão de vendas injetável contra a obesidade, foi lançado nos Emirados Árabes Unidos e no Reino Unido e recebeu recentemente a aprovação da União Europeia. A Novo também avança com o comprimido oral de última geração Zenagamtide, que está iniciando estudos de fase 3 e poderá chegar ao mercado antes do fim da década se “tudo correr bem”.
“Estamos à frente em pesquisa e desenvolvimento para a próxima geração e muito à frente no que diz respeito à comercialização do comprimido, não apenas nos Estados Unidos, mas em praticamente todos os lugares onde estamos presentes atualmente”, afirmou.
Embora Doustdar esteja otimista em relação ao próximo comprimido, as margens da Novo vêm sofrendo pressão. A empresa foi obrigada a reduzir drasticamente os preços nos Estados Unidos, seu maior mercado, depois que o presidente Donald Trump instou os maiores grupos farmacêuticos do mundo a baixar os preços no país. Essa redução, descrita pelo chefe da Novo como “sem precedentes”, corroeu as margens da empresa sobre seus injetáveis mais lucrativos.
A Novo aposta que o rápido crescimento das vendas dos comprimidos compensará os preços mais baixos de seus injetáveis. O Medicare, programa de seguro de saúde dos Estados Unidos para idosos, passou no mês passado a oferecer acesso ampliado ao Wegovy, o que pode elevar as vendas.
Mas a empresa ainda não convenceu os investidores, às vésperas da divulgação de seus resultados financeiros semestrais, na quarta-feira (5). Suas ações caíram mais de 8% neste ano e são negociadas a menos de um terço do pico alcançado em 2024.
“É justo dizer que os investidores ainda têm dúvidas sobre o caminho da Novo daqui para a frente”, afirmou James Gordon, analista do Barclays. “Eles gostariam de um plano mais claro sobre o que a empresa venderá depois da semaglutida. Isso porque, até 2030, a semaglutida, considerando suas diferentes versões injetáveis e orais, responderá por cerca de 70% das receitas, e o plano de sucessão para depois de 2030 ainda é um pouco incerto.”
Enquanto a Novo tenta ampliar sua linha de desenvolvimento e diversificar o portfólio, Doustdar afirmou estar aberto a fusões e aquisições de “grande porte”.
Questionado se consideraria acordos capazes de transformar a empresa, respondeu: “Sim, eu não hesitaria em seguir nessa direção… Fico satisfeito por termos um balanço capaz de comportar uma operação de porte muito elevado.”
Doustdar também sinalizou que consideraria negócios muito maiores do que a aquisição da desenvolvedora de medicamentos contra a obesidade Metsera pela Pfizer, por US$ 10 bilhões, concluída após uma disputa pelo controle com a Novo. Segundo ele, essa não foi uma transação “grande”.
Falando antes de vir a público a notícia das negociações entre AstraZeneca e Bristol Myers Squibb sobre uma possível megafusão farmacêutica de US$ 400 bilhões, ele disse: “Provavelmente estamos hoje examinando mais salas virtuais de dados do que nunca, avaliando absolutamente tudo o que existe por aí”. Ressaltou, porém, que a empresa priorizava ativos capazes de preencher lacunas em seu portfólio, e não o tamanho das operações.
O chefe da Novo vê os negócios como uma possível resposta às frequentes dúvidas dos investidores sobre a capacidade de diversificação da empresa. Ao contrário de sua maior concorrente no segmento de perda de peso, a Eli Lilly, que também atua em oncologia e neurociência, a Novo obtém mais de 90% de suas vendas com medicamentos contra obesidade e diabetes.
“Acredito, sim, que precisamos diversificar, não há dúvida, mas acho que precisamos fazer isso de maneira disciplinada, em áreas científicas e junto a populações de clientes com as quais nossa marca já é associada”, afirmou.
Cerca de 2 bilhões de pessoas sofrem de problemas relacionados ao diabetes, à obesidade e ao sobrepeso, e a Novo pesquisa tratamentos para doenças cardiovasculares, renais e hepáticas. Estudos de alguns de seus tratamentos contra o Alzheimer não atingiram seus objetivos primários no fim de 2025.
A semaglutida, principal ingrediente do Wegovy, também demonstrou reduzir o consumo de álcool e drogas e pode ajudar no tratamento da apneia do sono e de problemas de pele, segundo Doustdar.
Ele lidera uma empresa formada em 1989 pela fusão de duas rivais, Novo e Nordisk. As empresas antecessoras extraíam insulina do pâncreas de porcos em um país conhecido por ter mais suínos do que habitantes.
Hoje, a empresa é quase irreconhecível em comparação com aquela época, mas Doustdar afirmou resistir a algumas das regalias normalmente desfrutadas pelos chefes de grandes multinacionais.
Ele trabalha em uma mesa em espaço aberto na sede da Novo e usa uma pequena sala semelhante a uma cabine telefônica para fazer ligações particulares. Sua mesa é cercada por fotos da esposa e dos dois filhos, além de uma placa com o alerta: “A arrogância mata”.
Seu bem mais estimado, no entanto, é um dente de mamute, que teria sido ganho pelo pai marinheiro do primeiro diretor-presidente da empresa em uma partida de pôquer na Rússia e, depois, transmitido de uma geração de líderes à seguinte.
“É um lembrete diário de que estou aqui por pouco tempo e de que tenho a responsabilidade de passar o bastão a outra pessoa depois de mim”, afirmou. “E, quando fizer isso, gostaria que a empresa estivesse em melhores condições do que quando a recebi.”
